Flores e Chumbinhos: a Nova Safra de Café
A nova safra de café já está em pleno curso.
Este ano, devido à intensa seca, combinada elevadas temperaturas, que assolou o Brasil no início da primavera, acabou atrasando um pouco o calendário do café, mas nada que seja muito relevante.
O cafeeiro é uma planta considerada pelos botânicos como perene, isto é, que uma vez plantada, passa a produzir por sucessivos anos, ao contrário do milho e soja, por exemplo, chamadas de culturas anuais, pois produzem em apenas um único ciclo de vida. Além disso, o cafeeiro deve ser vista como uma árvore frutífera, conforme já comentei em posts anteriores.
Assim, como toda boa árvore frutífera e perene que se preze, sua safra segue a lógica das estações do ano: Florada na Primavera (combina, não é mesmo?), Crescimento no Verão, Amadurecimento no Outono e, finalmente, Colheita e um pequeno Descanso no Inverno.
Após a colheita, que coincide com o período frio e mais seco no Brasil, a planta se prepara para a nova safra, emitindo botões que se transformarão em flores de intenso e inebriante perfume adocicado.
Num ano em que o inverno foi particularmente seco e quente, como este, a planta se prepara diferentemente, como se pressentisse que algo não está correndo bem na Natureza, e converge todo o seu esforço metabólico para os botões florais.
E por quê isso?
Flores e frutos representam a perpetuação da espécie.
Simples, não?
Observem que quanto mais inóspita é uma região, suas plantas possuem uma capacidade incrível de emitir flores e sementes, estas até adaptadas para se deslocarem com mais facilidade e conseguirem formar novas plantas eficientemente.
E neste ano, as lavouras de café tiveram uma florada exuberantemente intensa, branqueando os campos como somente a Natureza pode fazer.
A grande preocupação dos produtores e técnicos era saber os efeitos do stress provocado pela seca e altas temperaturas nesta safra que está literalmente no “pé de café”.
Observe a foto a seguir:
Ela captou um raro momento em que se vê uma flor no auge de sua exuberância, quando a fecundação está se garantindo, e uma outra se destacando do futuro fruto.
Quando a fecundação está feita, há um desprendimento natural da flor pelo seu pedúnculo. Daí, em questão de horas, suas pétalas começam a se desidratar, ficando quebradiças e marrons, caindo, posteriormente, ao chão.
Esse desprendimento da flor é um indicativo de um fruto que vingou.
Para o produtor, apesar de beleza estética que esta foto apresenta, não é a situação ideal, pois para o processo produtivo e, obviamente, como negócio, um maior número de frutos vingados por internódio é o que se espera.
Cada pedacinho do ramo do cafeeiro representa um período de crescimento, enquanto que o nós que faz essa separação é chamado de internódio.
Cada internódio possui duas intersecções por onde a planta emite pequenos gorgulhos que podem se tornar ramos e folhas ou flores e frutos. Isto depende principalmente de fatores climáticos e de um bom equilíbrio nutricional, entre outros.
Quando a planta “resolve” ser produtiva, cada lado do internódio apresenta 4 grupos de gorgulhos (que são os “olhinhos” dos botões) com 4 botões cada um. Logo, potencialmente cada internódio pode abrigar até 32 botões florais, sendo 16 de cada lado.
Pensando pela ótica administrativa, é claro que como produtor você reza para que os 32 botões florais se transformem em flores que originarão grãos de café!
Mas, há o problema de espaço e 32 grãos de café é uma quantidade excessiva numa roseta, que é como se denomina o conjunto de grãos de café em cada internódio.
Portanto, alguns grãos não crescerão satisfatoriamente, outros cairão prematuramente, ficando somente aqueles que poderão preencher todo o espaço que uma roseta pode conter.
Na foto ao lado, numa fase adiantada, vemos os grãos na fase denominada “chumbinho”, pois o seu formato lembra a mais tradicional munição de espingardas do interior brasileiro.
Soa natural, dessa forma, ouvir frases como “roseta cheia” ou “roseta vazia” quando se fala na quantidade de grãos nos internódios. Obviamente que isso tem impacto no mercado, pois pode representar a diferença entre uma grande ou pequena safra de café.


