O homem sempre tenta superar o próprio homem.
É fato.
Os cientistas nunca se dão por satisfeitos e têm a clara determinação de reproduzir o que uma pessoa pode fazer através de máquinas sofisticadas.
Agora é a vez do espresso ser avaliado por uma máquina!
Uma equipe de cientistas do Centro de Pesquisas da Nestlé, em Lausanne, Suiça, liderada por Christian Lindinger, desenvolveu um equipamento para analisar espressos através da verificação quantitativa de 16 substâncias características.
Em termos de equipamento, como pode ser visto neste esquema, sua constituição é bastante simples, tendo um recipiente para o espresso que está contido em um sistema de banho-maria com temperatura controlada.
No recipiente do espresso, que fica hermeticamente fechado, há um sensor de temperatura e dois tubos, um servindo de entrada para gás com concentração e velocidade controlada, e outro como saída para as substâncias volatilizadas e arrastadas pelo gás insuflado. Este gás segue para o analisador que, através de uma grandiosa biblioteca de substâncias, identificará e quantificará os componentes do espresso.
Para que a temperatura do café fique estável, há um sistema de agitação por meio magnético, que nada mais é que alguns imãs revestidos sob ação de um campo magnético.
O que surpreende neste experimento é a razoável similaridade dos resultados finais, pois previamente 11 amostras de espresso foram avaliadas por uma equipe de provadores antes de seguirem para a máquina analisadora.
Pode-se dizer que os resultados foram simplesmente assombrosos.
Obviamente, houve todo um cuidado para que as condições de preparo e serviço dos 11 espressos fossem rigorosamente as mesmas, tanto para o profissionais chamados de “painelistas” como para a máquina.
Observe no gráfico ao lado, onde 2 dos espressos têm suas características de aromas e sabores identificadas e podem ser vistas 2 linhas: a em traço na cor vermelha representa os resultados de avaliação dos “painelistas”, enquanto que a curva na cor preta configura a avaliação do equipamento.
Surpresinha!!!
Veja que as curvas quase se sobrepõem, o que significa que os resultados estão bastante próximos!
Certamente o grande avanço é o emprego de um modelo matemático adaptado ao programa que estabelece a rotina de avaliação da máquina e que confere, por ora nos cafés estudados, um elevado grau de acerto.
Veja um post de junho de 2007 ( acesse http://coffeetraveler.net/2007/06/11/cyber-cupping-lingua-eletronica/ ) onde um vídeo apresenta a chamada “Língua Eletrônica” desenvolvida pela EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias de São Carlos, SP.
Como se vê, duas são as barreiras que separam essas incríveis máquinas e as habilidades humanas: uma é a chamada “biblioteca” de aromas e sabores registrados e armazenados, que nas máquinas é fruto de intensa pesquisa e inúmeros testes, base de análise e comparação da máquina, e a outra é a capacidade de interpretação das substâncias combinadas. Principalmente para este segundo ponto, somente um programa com desenho neural pode ter um desempenho aproximado da performance humana.
Incrível, não?!
É coisa para se refletir… obviamente bebendo e somente apreciando um belo café!
Deixe a análise para as máquinas e os classificadores…












Caríssimo Neto:
cada vez que venho aqui aprendo mais, muito mais sobre café. Sem qualquer favor não conheço – pelo menos no Brasil – um blog sobre café com esta qualidade e profissionalismo. Se fosse editor de um desses portais da grande mídia, há muito tempo teria feito a você uma proposta para incorporar o seu blog.
Ocorre que há uma ignorância fenomenal por parte da quase totalidade dos brasileiros naquilo que se relaciona ao café. Incrível, não? Um país que é o maior exportador dessa iguaria consumida praticamente no mundo inteiro e que gera emprego e renda e movimento milhões de dólares costuma beber água suja acondicionada em garrafas térmicas (argh!). Não é café, trata-se de uma beberagem botocuda.
É como vc observou muito bem. Apreciar um bom café, saber diferenciar o que é água suja de de café, situa-se na esfera da cultura. O botocudismo continua imperando no Brasil e foi turbinado depois que Lula e seus sequazes chegaram ao poder.
Creio que no que tange à qualidade do café, isto começou há mudar há pouco tempo, coisa de uns 10 anos. Vc poderá precisar melhor. A primeira providência foi tomada pelo menos há uns 20 anos pela ABIC, quando criou o Selo de Pureza. Mas isto não significou que estaríamos passando a beber um bom café. O Selo se destinou a acabar com a odiosa e criminosa adulteração do produto pelas torrefadoras.
Me lembro muito bem disso, pois na época dirigia o Departamento de Comunicação da FIESC (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina) quando recebemos o pessoal da ABIC para o evento de lançamento do Selo de Pureza.
Naquela oportunidade fui informado de que os industriais torrefadores não estavam recebendo muito bem o tal Selo. Veja só! Era a própria associação dos industriais do café que criava uma auditoria nas empresas dos seus próprios associados.
Bom, isto dá a medida exata do padrão moral e ético do empresariado brasileiro que conheço de perto. Trabalhei quase 30 anos na FIESC e vivia em reuniões em Brasília, no Rio e São Paulo e até no exterior.
É certo que nem todos os empresários são vagabundos, mas uma grande maioria é. E além de tudo, são patrimonialistas e não conseguem viver fora da sombra do Estado.
O caso mais recente da sabugice do empresariado brasileiro revelou-se no caso da adulteração do leite!
Entretanto, pelas mãos de profissionais como vc e de dirigentes responsáveis e conscientes da ABIC hoje já podemos sorver espressos esplêndidos e as pessoas, mesmo comprando um produto de segunda linha, levam café e não aquela mistureba ordinária cuja finalidade era gerar a riqueza dos torrefadores por meio de uma fraude.
Creio que ainda se tem um grande caminho a percorrer até que prepondere a boa ética nos negócios no Brasil.
Bom. Acho que já fui longe demais. Isto já não é uma comentário. É um artigo…hehehe…mas é que fico entusiasmado quando visito o seu blog e leio os seus textos.
E olha, meu caro. Seus textos estão cada vez melhores. Já desconfio que vc está escrevendo um livro sobre café, se é que já não tem algo editado.
Conte sempre comigo quando precisar divulgar algo. Mando ver lá no meu bloguinho.
Abração, Neto. Todo o sucesso para vc que vc merece!
Aluízio Amorim