Março 25th 2008

Semelhanças & Diferenças: Vinho e Café 1

Hoje há uma percepção maior sobre as Semelhanças e Diferenças entre o Vinho e o Café, em parte reforçada pelo movimento dos Cafés Especiais, que conferiu ao nosso “Negro Vinho” um novo status.

Vou iniciar comentando sobre algumas semelhanças entre estas duas bebidas que hoje são consideradas “fashion”…

AGRONÔMICA 1: as uvas e os frutos do cafeeiro são frutas que fazem parte do grupo, segundo os botânicos, das Não Climatéricas, ou seja, que para atingirem o seu ponto de maturação completo devem permanecer ligadas às plantas.

Mundo Novo redIsto quer dizer que se o fruto for retirado da planta antes de atingir sua plena maturação, esta não acontecerá.

Ao contrário, as chamadas frutas Climatéricas, como é o caso da banana, atingirão sua maturação completa mesmo que sejam colhidas verdes. É por isso que a banana chega ainda verde nos centros de distribuição, pois a velocidade de sua maturação é lenta o suficiente para que ela chegue madura quando estiver nos balcões dos supermercados ou nas feiras livres. O fator que pode acelerar este processo é o calor, de forma que nas estações mais quentes, como o Verão, as bananas amadurecem mais rapidamente.

Portanto, tanto para a obtenção de um excelente vinho como para um excepcional café, os frutos devem ser colhidos perfeitamente maduros, preferencialmente.

AGRONÔMICA 2: A velocidade de maturação depende da variedade escolhida.

bourbon yellowNa foto acima pode-se ver uma belíssima “roseta” (coroa de grãos formados nos internódios de um ramo de café) de uma planta da variedade arabica Mundo Novo em sua maturação plena.

Nesta foto ao lado, frutos da sempre muito procurada variedade Bourbon Amarelo com sua característica tonalidade alaranjada que denota o amadurecimento completo.

Estas duas variedades são consideradas Precoces, ou seja, naturalmente possuem um ciclo entre a florada até a plena maturação menor do que as variedades ditas normais ou até as tardias.

Entre as duas apresentadas, o Bourbon Amarelo é a variedade mais precoce. Apesar do seu sabor potencialmente fantástico, o local de seu plantio acaba sendo determinante para a obtenção de toda a gama dos aromas e sabores.

chardonnay ORCom as uvas para vinho, o conceito é exatamente o mesmo!

Veja que belo cachinho de uvas Chardonnay num parreiral no Columbia Valley, Oregon.

Uvas que conferem grande complexidade nas notas aromáticas e de sabor, em geral, precisam de um clima mais frio para que todo o seu potencial possa se expressar.

É por isso que em áreas mais quentes há uma predominância de elaboração de vinhos espumantes. No caso do Brasil, as vinícolas estão mudando suas plantações para áreas na divisa com o Uruguai, além do paralelo 30, para que o clima possa interagir beneficamente com excelentes variedades.

Um dos vinhos Chardonnay mais interessantes do Brasil é produzido pela Casa Villa Francioni na Serra Catarinense, próximo a São Joaquim, região conhecida pelo seu inverno rigoroso.

AGRONÔMICA 3: Uvas e Café são produzidos apenas em ramos novos.

espaldadas ORPara a produção de uvas, após o período em que as parreiras descansam, quando os galhos ficam nus e as podas são feitas, os gorgulhos lançam os ramos que formarão os novos cachos.

Nesta foto tirada no outono, é visto um típico parreiral espaldado na fase em que as folhas já estão adquirindo tons amarelos e dourados, pois a clorofila, que dá a cor verde, já se desnaturou.

No caso do café, há uma grande preocupação em manter o “lançamento” vigoroso dos ramos, pois é nos internódios, como são chamadas as interseções, que os frutos surgirão, podendo formar rosetas idealmente cheias. 

Fevereiro 24th 2008

Comece o seu cafezal…

Já pensou em ter um pé de café em casa?

FG muda2Com essa idéia, uma campanha diferente começou nesta semana em Belo Horizonte através do Café Fino Grão.

Muitas pessoas não imaginam como é um cafeeiro, pois geralmente só conhecem o produto Torrado & Moído, quando não nos reservatórios dos moinhos para o serviço de espresso. É um caso muito parecido com o do leite, quando muitas crianças das grandes cidades só tiveram acesso ao leite longa vida, acondicionado nas famosas “caixinhas”.

Essa empresa retomou uma campanha realizada no ano passado, cujo objetivo é o de presentear os consumidores com uma muda de um cafeeiro da variedade Catuaí Vermelho.

Para este ano serão distribuídas 50.000 mudas em diversos pontos da região metropolitana de Belo Horizonte, MG.

catuai closeNum momento em que a ecologia e meio-ambiente são assuntos cada vez mais comuns junto às pessoas, esta interessante ação faz com que um vínculo afetivo também se crie ao se plantar essa muda de cafeeiro.

Vê-lo crescer, acompanhar os seus ciclos anuais e, até, ver uma florada e sua frutificação, permitirá uma visão abrangente de quão complexo é o caminho que é percorrido da planta até a xícara de um grande café.

E quem sabe, não desperta a vocação de novos cafeicultores?. . .

Janeiro 17th 2008

É Tempo de Colheita do Café…

Sim, agora é o momento do auge da colheita de café… no Hemisfério Norte.

As plantações de café se distribuem no mundo na faixa compreendida entre os Trópicos de Câncer e de Capricórnio, portanto, temos, dessa forma, lavouras nos dois hemisférios.

Devido ao movimento de translação da Terra, conjugado com a inclinação do seu eixo, as estações se alternam entre os dois hemisférios: quando é primavera no Hemisfério Sul, é outono no Norte.

É porisso que os países produtores do Hemisfério Norte estão em seu pico de colheita, que corresponde às condições do mês de julho no Brasil, por exemplo.

CobanGuatemala PHong mdEsta foto foi tirada pelo Companheiro de Viagem Peter Hong e mostra grãos de café cereja de uma lavoura da região de Coban, na Guatemala.

Coban, que fica ao norte de Guatemala City, em região montanhosa do lado do Oceano Atlântico, produz cafés com grande acidez e pelo fato dos cafeicultores, em geral, serem de pequeno tamanho, como é comum fora do Brasil.

Observe a pequena lata que serve de recipiente para os grãos. Por ser uma região montanhosa, onde as múltiplas floradas são uma constante, a técnica de colheita empregada, sempre manualmente, é a chamada “seletiva”, ou seja, quando são colhidos a dedo apenas os grãos perfeitamente maduros (hand picking).

O sorriso da menina está irresistível, não?

Derri  a1a mdNo Brasil, cuja cafeicultura se caracteriza pelas propriedades de maior tamanho, a prática empregada é conhecida como “Derriça”, quando os grãos são puxados no sentido a partir do tronco para a ponta dos ramos (stripping).

Não é uma colheita seletiva, mesmo sendo manual, pois todos os grãos são retirados dos ramos, independente do seu ponto de maturação. Daí a necessidade de se fazer uma separação antes da secagem.

Observe nesta primeira foto a posição da mão da colhedora.

Agora, na foto a seguir, veja como sua mão está próxima à ponta do ramo.

Derri  a1b mdAlém dos grãos, folhas também acabam sendo retiradas.

No entanto, o colhedor deve ter cuidado para não afetar as partes onde não há grãos e onde a florada da safra seguinte acontecerá.

Hoje em dia, os grãos caem sobre panos para que não haja contaminação com terra, mantendo a chance de se ter uma bebida de boa qualidade. Daí esse procedimento ser conhecido por “Derriça no Pano”.

Antes de seguir para a secagem, as folhas e pedaços de ramos são retirados para que apenas os grãos de café permaneçam e sejam processados.

Janeiro 12th 2008

Ano Novo, Safras e Lavouras Novas

Depois de uma pausa, volto aos posts e aproveito para desejar a todos um Muito Feliz 2008!

O período que vai do final da primavera no Hemisfério Sul, início de novembro, até meados do outono, no final de abril, é aquele em que normalmente os produtores de café fazem os plantios das lavouras.

Particularmente estimulados por preços bastante elevados em dólar americano (e penalizados pelo atual câmbio com o Real forte), muitos produtores estão renovando áreas, ou seja, retirando plantas velhas e plantando outras novas, muitas vezes incorporando novas tecnologias.

Vão a campo as mudas de café, que levam alguns meses entre a semeadura até o momento do plantio propriamente dito. Comercialmente, não se planta o café jogando sua semente diretamente no solo.

OrelhaOn  a 1mdAs sementes para o preparo de mudas são, na realidade, grãos colhidos cerejas de plantas de uma lavoura especialmente estabelecida. São os Campos de Sementes.

Os grãos cerejas colhidos são descascados e secos na sombra para não prejudicar a capacidade de germinação. Ficam em pergaminho, que é aquela película branca que recobre o grão de café propriamente dito.

As sementes são postas em um germinador, onde são mantidas úmidas para ativar a germinação. Quando a raiz eclode, as sementes germinadas são transplantadas em saquinhos com terra previamente preparada.

Depois de um certo tempo, despontam em cada saquinho o primeiro par de folhas que é chamado de “Orelha de Onça” porque lembra o formato da orelha desse felino. Depois, com o crescimento vertical da plantinha, vão surgindo, sequencialmente, pares de folhas inseridos em junções chamadas de “internódios”.

MudaViveiro finalMDEm geral as mudas são levadas para o campo quando têm de 3 a 4 pares de folhas “normais”, pois em geral aquelas com a forma de “orelha de onça” caem.

Observe nesta foto que as mudas estão formando novos pares de folhas nas pontas.

Particularmente, estas são mudas da variedade chamada Acaiá, que é derivada da Mundo Novo, e que pode ser conferido pela coloração das folhas mais novas, que têm tonalidade marron. Entre os técnicos e produtores esse tipo de coloração é chamada de “ponta roxa”.

Veja na foto abaixo uma bela composição com as mudas com “orelha de onça”…

OrelhaOn  a 2md

 

Novembro 30th 2007

Flores e Chumbinhos: a Nova Safra de Café

A nova safra de café já está em pleno curso.

Este ano, devido à intensa seca, combinada elevadas temperaturas, que assolou o Brasil no início da primavera, acabou atrasando um pouco o calendário do café, mas nada que seja muito relevante.

O cafeeiro é uma planta considerada pelos botânicos como perene, isto é, que uma vez plantada, passa a produzir por sucessivos anos, ao contrário do milho e soja, por exemplo, chamadas de culturas anuais, pois produzem em apenas um único ciclo de vida. Além disso, o cafeeiro deve ser vista como uma árvore frutífera, conforme já comentei em posts anteriores.

Assim, como toda boa árvore frutífera e perene que se preze, sua safra segue a lógica das estações do ano: Florada na Primavera (combina, não é mesmo?), Crescimento no Verão, Amadurecimento no Outono e, finalmente, Colheita e um pequeno Descanso no Inverno.

Após a colheita, que coincide com o período frio e mais seco no Brasil, a planta se prepara para a nova safra, emitindo botões que se transformarão em flores de intenso e inebriante perfume adocicado.

Flor close4 1 2Num ano em que o inverno foi particularmente seco e quente, como este, a planta se prepara diferentemente, como se pressentisse que algo não está correndo bem na Natureza, e converge todo o seu esforço metabólico para os botões florais.

E por quê isso?

Flores e frutos representam a perpetuação da espécie.

Simples, não?

Observem que quanto mais inóspita é uma região, suas plantas possuem uma capacidade incrível de emitir flores e sementes, estas até adaptadas para se deslocarem com mais facilidade e conseguirem formar novas plantas eficientemente.

E neste ano, as lavouras de café tiveram uma florada exuberantemente intensa, branqueando os campos como somente a Natureza pode fazer.

A grande preocupação dos produtores e técnicos era saber os efeitos do stress provocado pela seca e altas temperaturas nesta safra que está literalmente no “pé de café”.

Observe a foto a seguir:

P1040792 1Ela captou um raro momento em que se vê uma flor no auge de sua exuberância, quando a fecundação está se garantindo, e uma outra se destacando do futuro fruto.

Quando a fecundação está feita, há um desprendimento natural da flor pelo seu pedúnculo. Daí, em questão de horas, suas pétalas começam a se desidratar, ficando quebradiças e marrons, caindo, posteriormente, ao chão.

Esse desprendimento da flor é um indicativo de um fruto que vingou.

Para o produtor, apesar de beleza estética que esta foto apresenta, não é a situação ideal, pois para o processo produtivo e, obviamente, como negócio, um maior número de frutos vingados por internódio é o que se espera.

Cada pedacinho do ramo do cafeeiro representa um período de crescimento, enquanto que o nós que faz essa separação é chamado de internódio.

Cada internódio possui duas intersecções por onde a planta emite pequenos gorgulhos que podem se tornar ramos e folhas ou flores e frutos. Isto depende principalmente de fatores climáticos e de um bom equilíbrio nutricional, entre outros.

Quando a planta “resolve” ser produtiva, cada lado do internódio apresenta 4 grupos de gorgulhos (que são os “olhinhos” dos botões) com 4 botões cada um. Logo, potencialmente cada internódio pode abrigar até 32 botões florais, sendo 16 de cada lado.

P1040770 1Pensando pela ótica administrativa, é claro que como produtor você reza para que os 32 botões florais se transformem em flores que originarão grãos de café!

Mas, há o problema de espaço e 32 grãos de café é uma quantidade excessiva numa roseta, que é como se denomina o conjunto de grãos de café em cada internódio.

Portanto, alguns grãos não crescerão satisfatoriamente, outros cairão prematuramente, ficando somente aqueles que poderão preencher todo o espaço que uma roseta pode conter.

Na foto ao lado, numa fase adiantada, vemos os grãos na fase denominada “chumbinho”, pois o seu formato lembra a mais tradicional munição de espingardas do interior brasileiro.

Soa natural, dessa forma, ouvir frases como “roseta cheia” ou “roseta vazia” quando se fala na quantidade de grãos nos internódios. Obviamente que isso tem impacto no mercado, pois pode representar a diferença entre uma grande ou pequena safra de café.

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