Julho 8th 2008

50 anos dos 50 anos da Imigração Japonesa no Brasil…

Se pensarmos que 100 anos de comemoração podem significar também 50 anos de comemoração do 50. aniversário da Imigiração Japonesa no Brasil, há um interessante registro histórico para isso.

Takahito Yuriko Brasil50  365 x 482O jornal FOLHA DE SÃO PAULO possui um espaço onde costuma apresentar as manchetes de 50 anos atrás, baseados no mesmo dia e mês.

Neste caso, consegui esta página do dia 19 de junho de 1958, que contem um retrato do Príncipe Takahito e a Princesa Yuriko bebendo um emblemático cafezinho, justamente quando vieram ao Brasil para os festejos dos 50 anos da Imigração Japonesa.

A foto, tirada no dia 18 de junho de 1958, mostra ambos numa recepção em Mogi das Cruzes, cidade a 60 km distante da capital paulistana e que possui uma grande colônia japonesa. Tradicionalmente os descendentes nipônicos daquela área dedicavam-se no plantio de horti-fruticultura, abastecendo principalmente a cidade de São Paulo.

Vale o registro histórico, que mais um vez sela a origem da saga japonesa no Brasil com um típico cafezinho…

Abril 21st 2008

Um Museu do Café…do Outro Lado do Mundo

Fica no Japão um dos mais completos e impressionantes museus sobre o café do mundo.

UCCMuseum KobeInstalado numa ilhota onde fica um grande complexo industrial em Kobe, o UCC Coffee Museum é uma visita obrigatória para todos os “loucos” por café que estiverem passando por aquela região.

Kobe é uma das principais cidades portuárias japonesas, tendo sido a que recebeu as primeiras visitas de naus portuguesas, que desde o final do Século XV já singravam os mares em busca das cobiçadas especiarias que somente o Oriente possuía. Desta série de visitas originou-se uma série de palavras e até um bolo com nomes que têm a sonoridade da língua portuguesa. “Castera” (pronunciando-se kas-te-ra sem acentuação), som que lembra castelo,  é o nome dado a um bolo que é parecidíssimo com o mais básico dos bolos brasileiros, o “Pão-de-Ló”, pois quando os portugueses ofereceram aos japoneses esta sobremesa, estes lembraram-se do formato dos tradicionais castelos japoneses.

A cidade de Kobe possui uma área histórica localizada em sua parte mais alta, enquanto que junto ao mar a cidade possui uma arquitetura arrojadamente futurística, como se tem nas grandes cidades japonesas. Parte dessa arquitetura, que ainda cheira a novo, deve-se à reconstrução que se seguiu ao mais violento terremoto que a região já sofreu, em 1995.

UCCMuseum entradaA UCC - Ueshima Coffee Co. é a maior indústria de café do Japão, líder nesse mercado. Além da sua linha de café, possui uma série de diferentes redes de cafeterias, tipicamente japonesas, e restaurantes de refeições rápidas.

No entanto, é justamente a paixão pelo café que move essa empresa, presidida pelo dinâmico Mr. Tatsushi Ueshima. A UCC possui uma divisão agrícola, que coordena os trabalhos em fazendas próprias na paradisíaca ilha de Kona, no arquipélago de Hawaii, e na mítica região do Blue Mountain, na Jamaica.

O museu fica ao lado da principal planta da UCC, como pode ser vista na primeira foto. Sim, por incrível que pareça, aquela torre de vidros azulados é a área industrial, que prima pela altíssima tecnologia desde a recepção do café cru, o processo de torra até o empacotamento. É uma planta simplesmente impressionante.

O museu procura oferecer uma visão sobre a cultura do café, sua história e desenvolvimento, além de diversos vídeos que mostram a forma de consumo em diversos países.

Abaixo, uma foto da área histórica, vendo-se em primeiro plano os diversos tipos de torradores:

UCCMuseum interno

Com uma excepcional infra-estrutura, o museu conta, além de uma curadora, local para pesquisas históricas e bibliográficas. Inclusive, todos que se dispuserem a conhecer o museu, ao preencherem uma ficha cadastral, são levados a caminhar pelas diferentes áreas temáticas, do plantio até as diferentes formas de consumo.

Como boa surpresa, ao final você recebe um cartão e um pequeno certificado de que você é, agora, um “Entendido em Café”!

Apesar de fora do tradicional circuito turístico que os ocidentais fazem no Japão, este é um local que os “loucos” por café não podem deixar de visitar.

Dezembro 1st 2007

Cidades Pólo de Café 2: Patrocínio, MG

A região do Cerrado Mineiro compreende 55 municípios do Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e parte do Noroeste de Minas Gerais, num altiplano que é parte do Planalto Central do Brasil.

Regi  oCerrado detalhadaÉ uma das mais jovens regiões produtoras de café do Brasil, pois seu início, segundo registros do extinto IBC - Instituto Brasileiro do Café, se deu em 1972 na cidade de Patrocínio, hoje conhecida como cidade-pólo do Cerrado.

O que impulsionou produtores de café do Norte do Paraná, Alta Paulista e alguns do Sul de Minas foram três aspectos: área sem ocorrência de geadas, topografia plana e, principalmente, terras muito baratas.

As terras do cerrado brasileiro até a década de 70 eram consideradas de baixa fertilidade, sentimento reforçado pela típica vegetação com árvores retorcidas, de no máximo médio porte. Naquele momento, o governo brasileiro, sob a visão de conquista de território dos militares, estabeleceu um grande plano estratégico para o desenvolvimento dos cerrados em parceria com o governo japonês.

Em plena crise do petróleo e com ecos da Guerra Fria, o Japão, país-arquipélago altamente dependente de importações de alimentos, através de seu governo decidiu investir no Brasil especificamente nos cerrados porque entenderam que este poderia ser um grande fornecedor de alimentos. O conceito básico para que essas novas áreas fossem desenvolvidos consistia em estabelecer assentamentos dirigidos com agricultores tecnificados e, ao mesmo tempo, dispostos a assumirem posição de desbravadores.

Isso explica porque, nessa fase inicial, os diversos assentamentos eram coordenados por cooperativas que tinham origem na colônia japonesa do Brasil, como as extintas Cooperativas Agrícolas de Cotia e Sul-Brasil.

Os empreendedores em geral se norteiam pelo seu instinto e para muitos este funcionou muito bem quando se decidiram em iniciar a cafeicultura na nova região.

130 3051 IMGCom o tempo, perceberam que havia um trunfo escondido no Cerrado: seu clima particularmente bem definido ao longo do ano.

Se observarmos de onde se originou a grande parte dos cafeicultores, em média o Norte do Paraná, a Alta Paulista e o Sul de Minas estão relativamente alinhados se considerada a latitude de Londrina, PR,  Garça e Marília, SP, e Varginha, MG, com algo em torno de 22°Sul. Patrocínio, cuja foto ao lado mostra sua entrada principal, está a 18°Sul, portanto, gerando uma diferença brutal em termos de quantidade de luz durante o ano.

Tempo chuvoso e quente de outubro a março, e ameno e seco de maio a setembro, que coincide com o período de colheita, desencadeou a percepção de que algo era diferente. Já no início dos anos 90,  qualidade do café despertou os compradores, no exato momento em que a indústria italiana illycaffè iniciou o seu hoje tradicional Concurso de Qualidade de Espresso. Nas primeiras edições deste concurso, praticamente todos os 10 finalistas eram do Cerrado Mineiro.

Ao mesmo tempo, os produtores começaram a se organizar em associações, vindo a constituir suas cooperativas posteriormente. Esta é uma das fortes características organizacionais da região: uma rede de cooperativas independentes em diversas cidades trabalhando em conjunto.

Picture 071A maior cooperativa fica em Patrocínio, cuja praça movimento aproximadamente 60% do café do Cerrado Mineiro, primeira região demarcada de café do Brasil, que produz no total algo como 4 milhões de sacas de café por ano.

Outro mérito é todo um trabalho estruturado de marketing, com marcas, selos e um programa de certificação de origem regional, que segue a tendência do mercado.

Hoje, o Café do Cerrado possui imagem ligada à qualidade como origem brasileira nos diversos destinos dos Cafés do Brasil.

Praticamente todas as importantes casas de comércio exterior possuem filial em Patrocínio, que conta com uma complexa estrutura especializada em café, como diversos armazéns, corretores e casas de insumos em geral.

Novembro 11th 2007

A Bebida Rio e sua Origem

O cafe pode ser classificado em funcao de sua bebida, sendo que no caso da COB - Classificacao Oficial Brasileira, ha uma referencia que eh a chamada “Bebida Dura”

Esta bebida tem como caracteristica o fato de, em tese, apresentar “Bebida Limpa”, ou seja, sem os chamados “Defeitos Capitais” que sao os decorrentes dos graos Pretos (que sofreram fermentacao fenolica e conferem sabor, digamos, amargosamente “medicinal”), os Verdes (que transferem grande adstringencia aa xicara) e os Ardidos (que sofreram a fermentacao acetica, deixando o sabor do vinagre no cafe). Eh o famoso “Trio PVA” !

Abaixo dessa referencia, o cafe pode ter sua bebida classificada como “Riada”, “Rio” e “Riozona”, principalmente quando os compostos fenolicos estao mais presentes. O cheiro desses compostos fenolicos lembram o “creosol”.

Mane Almir Neto1bO Companheiro de Viagem Almir da Silva Filho, da industria Cafe Toko, baseado em Juiz de Fora, nos contou a interessante origem do cafe com a “Bebida Rio”, que passo a seguir.

Nesta foto, Almir, muito conhecido como Mizinho ou, mineiramente, Mizim, estah ao centro, com o grande amigo Mane Alves, aa direita, e eu, seu Coffeetraveler, aa esquerda.

Por volta do ano de 1760, numa visita ao Governador do Maranhao, o Governador do Rio de Janeiro recebeu como presente mudas de cafe, que foram entregues a Frades Capuchinhos ao retornar ao Rio. Estes frades multiplicaram as mudas e distribuiram entre os fazendeiros da regiao do Vale do Rio Paranaiba, dentro da Provincia do Rio de Janeiro. Estes fazendeiros fizeram aflorar uma cafeicultura que se estendeu de Resende, Vassouras e Valenca ateh Juiz de Fora.

Em 1792, a Sesmaria de Vassouras, atraves de Francisco Rodrigues Alves e Luiz Homem Azevedo, tornou-se a Primeira Capital do Cafe, em pleno Seculo XIX !

Foi o incio do periodo do “Baronato do Cafe”, quando os fazendeiros, enriquecidos pelo fabuloso grao de cafe, adquiriam titulos de nobreza concedidos pela Familia Real instalada no Brasil.

Sobre este assunto hah um interessante video produzido pleo Marcos Sa Correa entitulado “O Vale”, que aborda o opulencia e decadencia dessa regiao que teve o cafe como locomotiva de seu progresso.

Caparao 1dNessa epoca, a colheita do cafe seguia este ritual: inicialmente o chao era limpo com enxada, quando eram retiradas as ervas daninhas e a terra ficava exposta. Esse processo, ainda empregado em algumas regioes brasileiras, recebe o nome de arruacao.

Esperava-se o grao de cafe maduro ou passa cair para, entao, ser “levantado”. Como essas regioes fluminenses sao montanhosas, a umidade do ar era muito alta, de forma que o chao molhado fazia com que reacoes de fermentacao indesejaveis se iniciassem nos graos de cafe, principalmente os de natureza bacteriana.

Depois de levantados, os graos seguiam em sacos nos lombos dos burros ate as sedes das fazendas, que normalmente se localizavam na area mais proxima aas nascentes de agua e, portanto, mais baixas, onde era maior a umidade do ar.

Os cafes que chegavam da lavoura eram, entao, amontoados com o objetivo de “queimar o mel do cafe” como forma de acelerar o processo de secagem.

Os graos “cerejas”, como sao denominados os maduros, tem grande quantidade de acucar em sua mucilagem e quando amontoados inicia-se o processo de fermentacao alcoolica e, em seguida, a acetica devido aa ausencia de oxigenio.

Os graos em estado “passa”, parcialmente desidratados, nessa amontoa, sao induzidos aa fermentacao bacteriana, produzindo os compostos fenolicos. Lembre-se do sabor do “fel” para ligar com o que corresponde aa bebida fenolica…

Depois de dias, observa-se um corrimento escuro desse monte de cafe, alem de uma “fumaca”, que nada mais eh do que o vapor de agua, jah que essas reacoes de fermentacao liberam calor.

Nesse momento, o cafe era “aberto”, ou seja, esparramado no terreiro para finalizar a secagem.

O cafe do Vale do Paranaiba era levado para o Porto do Rio de Janeiro por facilidade e menor distancia. Desde aquela epoca, os cafes produzidos em Sao Paulo seguiam para o Porto de Santos, enquanto que os do Parana, para o Porto de Paranagua.

Esse sabor “diferente”, acre, amargo e intenso, que se destacava do cafe produzidos, por exemplo, nas outras duas regioes, e acabou recebendo o nome do porto de escoamento: Rio.

Caparao 1aCom o esgotamento das terras do Vale do Paranaiba, a cultura migrou para o norte, em busca de solos ainda ferteis.

Assim, no final do Seculo XIX, a cafeicultura se instalou a partir de Juiz de Fora ate o municipio de Caratinga, regiao que ficou conhecida como Zona da Mata.

As praticas para a colheita e secagem do cafe seguiam a mesma receita do cafe produzido no Vale do Paranaiba, porem como esta nova regiao, que tem a Serra do Caparao como fundo, eh muito serrana e um clima muito mais umido devido aa presenca da Mata Atlantica, o sabor “diferente” do cafe produzido no Vale se reproduziu com maior intensidade. A partir dessa constatacao, a bebida corrente do cafe produzido na Zona da Mata recebeu o nome de Riozona.

Com o tempo, os produtores da regiao da Zona da Mata descobriram o potencial de alta qualidade que possuem e, por isso mesmo, fizeram um movimento para que a regiao fosse reconhecida como Matas de Minas, nome que arremete aa bebida especial que a regiao pode oferecer.

Ainda assim, muito desse cafe com sabor Rio e Riozona faz parte de blends de muitas industrias brasileiras, ate pelo habito arraigado de se tomar “cafe de garrafa termica” ou o cafezinho dos bares e padarias servido no indefectivel copo de vidro.

Agosto 12th 2007

Juarez do Valle: Uma Homenagem

A região do Cerrado Mineiro começou o convívio com a cafeicultura a partir do início da década de 1970, mais precisamente em 1972, segundo registros do extinto IBC - Instituto Brasileiro do Café, considerando-se o município de Patrocínio como referência.

Devido à característica geo-climática muito diferente das então tradicionais origens produtoras de Cafés do Brasil como a Alta Paulista, Norte do Paraná e Sul de Minas, os cafeicultores que se instalaram nos municípios do Alto Paranaíba, Triângulo Mineiro e parte do Noroeste de Minas tiveram de vencer muitos desafios, principalmente os relativos à tecnologia agronômica.

O Cerrado era conhecido naquela época como região de terras de pouca fertilidade e, por isso, de baixo valor. 

A busca por tecnologias que fossem adequadas ao clima continental, que define praticamente duas estações no ano, e ao ainda desconhecido solo dos cerrados, fez com que os produtores se organizassem em associações, cuja representatividade institucional alavancou um promissor modelo de interação entre a pesquisa e a produção.

A primeira associação de cafeicultores do Cerrado foi criada em Araguari, vindo, a seguir, a de Patrocínio, de Monte Carmelo e Araxá.

Caf  doCerrado H2OJovens e ousados, os cafeicultores intuitivamente criaram um novo sistema de organização, onde um organismo passou a congregar as diversas associações que estavam surgindo na região. Esse organismo foi fundado em 1993 e é conhecido como CACCER - Conselho das Associações dos Cafeicultores do Cerrado, liderarando as ações de marketing institucional e político.

Num período de grande efervecência criativa, nomes como Antônio Reinaldo Caetano, Francisco Sérgio de Assis, Aguinaldo José de Lima e Juarez do Valle se destacaram como verdadeiros motores para o crescimento institucional do Cerrado.

Certamente uma das mais privilegiadas e criativas cabeças era a do Juarez do Valle, então Presidente da Associação de Araxá. 

Talvez por sua impetuosidade, Juarez tenha sido mal compreendido por diversas vezes, mas sempre havia um toque criativo seu que o fazia reconciliar com todos.

O seu momento genial foi quando teve o repente para criar uma logomarca para a nova região, que está na foto acima.

Juarez comentava que essa logomarca, que hoje é vista nos principais destinos consumidores de café, ele “enxergou” quando estava amarrando os seus sapatos, sentado numa cadeira.

Seus pés estavam formando um ângulo entre si e ele visualizou os ramos estilizados de café com um grão cereja no centro. Rapidamente pegou uma caneta e num pedaço de papel começou a fazer os primeiros esboços, que logo se tornaram numa das logomarcas mais representativas do universo dos Cafés do Brasil. Coisa genial.

Nos últimos tempos, Juarez estava envolvido na promissora área de biodiesel e considerava-se muito feliz.

Mas, no dia 31 de julho ele nos deixou, de forma repentina, vítima de um ataque fulminante. 

A cafeicultura brasileira e, em particular, da região do Cerrado Mineiro tem uma grande perda.

Sempre sonhador, Juarez tinha grandes planos e projetos, que provavelmente estará realizando nos campos celestiais…

Nesta foto, uma homenagem ao Juarez:

JuarezValle

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